Narrar-se para existir: escrevivência com prática literária no ensino médio | Taila Costa & Beth Brait
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Informação adicional
| Peso | 0,550 kg |
|---|---|
| Dimensões | 23 × 16 × 2 cm |
O livro ultrapassa abordagens tecnicistas e discursos educacionais esvaziados de implicação ética ao propor uma metodologia que articula literatura, memória, corpo e resistência de maneira coerente e sensível. Ao ancorar-se na obra e no pensamento de Conceição Evaristo, especialmente no conceito de escrevivência, as autoras valorizam as vozes negras no espaço escolar, com atenção especial às experiências das mulheres negras. Em um contexto em que a escola ainda enfrenta o desafio de reconhecer plenamente a diversidade que a constitui, a escrita é apresentada como gesto de existência, de autoria e de resistência.
[…] Um dos méritos centrais do livro está na clareza de seu propósito educativo e social. A escola é concebida não apenas como espaço de transmissão de conteúdos, mas como território de escuta, criação e reconhecimento. Narrar-se, nesse horizonte, é um ato de formação: é inscrever-se no mundo como sujeito de história e de linguagem. Ao propor práticas que acolhem a experiência dos estudantes, as autoras reafirmam a dimensão política da docência, entendida como responsabilidade ética diante das desigualdades que atravessam o espaço escolar.
— Do Prefácio, de Jozanes Assunção Nunes
Professora Doutora PPGEL/UFMT
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Algumas literaturas nascem nas cozinhas, nos quintais, nas vozes das mulheres mais velhas, nas histórias repetidas ao redor da mesa, nas canções ouvidas ainda na infância. Há palavras que chegam antes da leitura formal e organizam silenciosamente a maneira como escutamos (sentimos) o mundo. Há escritas que começam no corpo, na memória e na experiência de tentar nomear a própria existência quando o mundo ainda insiste em negar certos sujeitos como dignos de fala (e de escuta).
É desse território de memória, oralidade e experiência que emerge Narrar-se para existir.
Ao aproximar literatura, educação e escrevivência, Taila Costa e Beth Brait constroem uma reflexão vigorosa sobre o direito à palavra, à imaginação e à autoria no espaço escolar. Mais do que discutir práticas de leitura e escrita no Ensino Médio, o livro enfrenta uma questão decisiva para o presente da educação brasileira: o que acontece quando jovens negros e periféricos encontram, na literatura, a possibilidade de narrar a própria experiência? O que se transforma quando a escrita deixa de ser apenas exercício escolar e passa a funcionar como elaboração de memória, construção de pertencimento e afirmação de existência?
Ancorada no pensamento de Conceição Evaristo, esta obra compreende a escrevivência não apenas como conceito teórico, mas como ética da linguagem e prática pedagógica. A palavra, aqui, não aparece dissociada da vida. Escrever envolve corpo, ancestralidade, escuta, experiência e memória. Nesse sentido, o livro desloca a literatura de um lugar puramente técnico ou conteudista para compreendê-la como experiência sensível e política capaz de tensionar silenciamentos históricos e produzir outras formas de presença no interior da escola.
Uma das forças da obra é justamente sua recusa de separar pensamento e experiência. O texto nasce da sala de aula, da convivência cotidiana com estudantes, da observação dos processos de escrita juvenil e da compreensão de que muitas vezes aquilo que a escola considera erro, excesso ou inadequação pode ser, na verdade, tentativa de construir linguagem para experiências ainda sem lugar legítimo de escuta. É desse território de memória, oralidade e experiência que emerge Narrar-se para existir.
Nesse sentido, Narrar-se para existir propõe uma inflexão importante no ensino de literatura. Em vez de reduzir a leitura à interpretação correta ou à reprodução de conteúdos, as autoras defendem práticas pedagógicas capazes de acolher a imaginação, a memória, a fabulação e a experiência subjetiva dos estudantes. A literatura aparece, então, como espaço de encontro entre leitura e vida.
A sequência didática apresentada no livro amplia ainda mais a potência da obra ao oferecer caminhos concretos para práticas pedagógicas comprometidas com a autoria juvenil e com a construção de currículos antirracistas. Contudo, o livro não assume um tom prescritivo nem oferece modelos fechados. O que se encontra aqui é antes um convite: convite à escuta, à experimentação, à leitura atenta dos gestos de linguagem produzidos pelos jovens e à construção de espaços em que escrever possa significar também existir.
Em um tempo marcado pela padronização dos discursos, pelo empobrecimento da experiência e pela dificuldade crescente de os jovens serem escutados, este livro reafirma a literatura como território de invenção, memória e resistência. Um território em que jovens podem não apenas ler histórias, mas reconhecer- se como sujeitos capazes de produzi-las. Até porque, para muitos deles (como foi para mim), escrever pode ser a primeira forma de ocupar simbolicamente o mundo com a própria voz.
– Elizabeth Cardoso,
escritora e professora doutora na PUC-SP
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SUMÁRIO
Prefácio, Jozanes Assunção Nunes
Introdução
Capítulo 1: A experiência literária como direito
. 1.1. O direito ao encanto
. 1.1.1. Do direito ao sonho: acesso à literatura e população negra
. 1.2. Formação literária em disputa: perspectivas críticas e olhares decoloniais
. 1.3. Por que um currículo antirracista?
Capítulo 2: Escrevivência: palavra, corpo e memória
. 2.1. Escrever o que nos acontece
. 2.2. Escrevivência: a poética de Conceição Evaristo
. 2.3. Escrevivência: rastros da memória ancestral
. 2.4. Escrevivência: intersecção entre memória e oralidade
Capítulo 3: Escrevivências juvenis: proposta de sequência didática
. 3.1. O que pode uma escrita negra no currículo branco?
. 3.2. O campo artístico-literário em disputa
. 3.3. Escrever-se jovem: literatura como território de insurgência
. 3.4. A sequência didática como articuladora de práticas pedagógicas
. 3.5. Do vivido ao escrito: uma sequência didática em seis movimentos
. 3.6. Do registro à reflexão: orientações para a leitura crítica das escrevivências
Considerações Finais
Referências
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Sobre as autoras
TAILA COSTA é professora de Língua Portuguesa e Literatura há 20 anos, com trajetória em escolas públicas, particulares e instituições do terceiro setor, atuando na formação de leitores, na educação linguística e na mediação literária. Possui experiência na formação de professores, na elaboração de materiais didáticos e na coordenação pedagógica. É mestra em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), bacharel e licenciada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e pedagoga pela mesma instituição.
BETH BRAIT é crítica, ensaista, docente da PUC-SP, atuando nos PPGs de LAEL e Literatura e Crítica Literária, aposentada da USP. Fez graduação em Letras, doutorado e Livre-Docência na USP e pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales Paris/França. É pesquisadora nível 1A do CNPq e coordena o projeto CNPq “Discursos de existência, inclusão e (in) visibilidade: perspectiva dialógica”. É autora, entre outras obras, de A personagem (edição revista e ampliada/2017), Ironia em perspectiva polifônica, Literatura e outras linguagens, organizadora de várias coletâneas sobre Bakhtin e o Círculo.
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