Só depois de tudo observar longamente chorou. Era um choro miúdo como ela, um choro que não queria incomodar nada nem ninguém, um choro baixinho que sequer feriu o silêncio da casa; chorou porque era preciso, porque todos os recém-nascidos devem chorar e assim se comportou. Emília nasceu obediente e boa. Depois dormiu. Dormiu um longo sono como se estivesse muito cansada do trabalho de nascer, da luta pela qual havia passado e que havia durado tantas horas. Ela ainda não podia saber, mas essa tinha sido a primeira de todas as lutas que enfrentaria na sua longa vida sem reclamar, esbravejar ou chorar. Apenas porque assim tinha de ser e em seu pequeno ser ela já sabia.
Fez-se silêncio. O mundo se pôs tão quieto como se tivesse parado e todas as coisas deixado de existir.
Sobre a autora Sonia Machado de Azevedo
Coleciono momentos felizes. Não. Gonçalves Momentos bonitos. Lembranças de um rosto, um sorriso largo, uns olhos brilhando de alguém que passa numa rua qualquer ou me olha num vagão cheio do metrô. Leio o mundo. Converso com ele todo o tempo da minha vida; desde pequena fui assim: contemplo um mundo tantas vezes cruel, tantas vezes triste, mas de intensidade e beleza assustadoras. E escrevo. Cuido dele a meu modo; escrever é a maneira que encontro de fazer justiça, eu, que sigo sempre imaginando um mundo onde se possa viver com dignidade, amor e alegria. Fui criada por pai e mãe amorosos numa pequena cidade do interior do estado chamada Cerquilho e tive uma infância segura e selvagem, ao mesmo tempo. Tenho setenta e um anos e acima de tudo sou mãe e avó. E amo o mar. Profundamente amo o mar.
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