Resenha: O império que o tráfico ergueu – Novos olhares sobre o comércio escravista em Angola

Fonte: https://www.scielo.br/j/vh/a/FkxZrNSNwVwfwgNTC67hQGh/?lang=pt

RESENHA • Varia hist. 41 • 2025 
https://doi.org/10.1590/0104-87752025v41e25055

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MENZ, Maximiliano. Senhor da morte. : Capitalismo, guerra e tráfico de escravos. Portugal, Angola e Brasil (1640-1770).São Paulo: Hucitec, 2024

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Em Senhor da Morte. Capitalismo, guerra e tráfico de escravos, Portugal, Angola e Brasil, Maximiliano Menz (2024) se afirma como promissor especialista da História de Angola no Brasil. Embora estude o tema há dez anos, com artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais, é na presente obra que Menz apresenta o seu fôlego historiográfico renovador sobre a história de Angola e a inevitável conexão com a história do Brasil.

Com 500 páginas, o livro é publicado pela Hucitec, dentro da coleção de História Econômica. Essa escolha editorial já sinaliza o primeiro propósito da obra: analisar o comércio escravista entre Portugal, Angola e Brasil a partir de interpretações econômicas, especificamente dentro da história do capitalismo. O tráfico de escravos é analisado à luz de conceitos como mercado de capitais, crédito, financiamento, lucro, mercadoria, letra de risco, liquidez, etc. Assim, a obra contribui para o debate sobre capitalismo e escravidão avançando na discussão sobre a importância do comercio escravista nos debates iniciados por Eric Willians em 1944 (Menz, 2024, p. 29; Willians, 2012).

Menz claramente defende a possibilidade de falar em capitalismo antes do século XIX. Tanto que o recorte temporal de Senhor da Morte Morte — de 1640 a 1770 — começa cronologicamente distante da revolução industrial, tradicional marco histórico do capitalismo. A lente econômica/capitalista para interpretar as relações históricas entre Angola, Brasil, Portugal e o Atlântico sul é uma das notáveis contribuições e inovações da obra.

Os anos iniciais e finais do livro também chamam atenção para a alargada cronologia da obra. Ela se justifica pelo tempo de pesquisa do autor em arquivos nacionais e internacionais (portugueses, espanhóis, angolanos, norte americanos). É impressionante a diversidade de fontes consultadas e analisadas, tanto em termos de abrangência temporal e espacial, quanto em relação à tipologia documental – cartas, relatórios, consultas, contratos, instruções diplomáticas, ordens régias, livros de notas, entre outras.

Esses documentos fundamentam os sete capítulos do livro, que em conjunto constroem a hipótese central: provar que o comércio escravista entre Angola e o Brasil se caracterizava como um fenômeno global, uma vez que parte significativa do financiamento dessa atividade econômica tinha origem no capital em Lisboa. Ou seja, confronta interpretações consolidadas que definem o comércio escravista no Atlântico Sul como bilateral (Brasil–Angola) ou triangular (Europa–África–América).

Ao defender tal hipótese, o autor não se esquiva em dizer qual discussão historiográfica pretende inserir a sua obra. Um dos caminhos adotados para defender sua posição historiográfica é problematizar os dados do Voyages, Slave Trade Database (TSTD). Ao desconsiderar, por exemplo, a origem do capital necessário para armar navios negreiros e transportar mercadorias como tabaco, açúcar e panos, o banco de dados sugere uma falsa ausência europeia nos acordos comerciais. Segundo o autor, a ausência de determinadas categorias na base contribui para perpetuar essas interpretações simplificadas.

Formular uma hipótese e se inserir em um debate historiográfico são compromissos metodológicos didáticos que esta obra apresenta. Muitos historiadores, embora formulem conclusões e sustentem determinadas ideias, frequentemente evitam adotar posicionamentos assertivos. Menz (2024) ainda aponta equívocos perpetuados por trabalhos anteriores. Quando precisa mostrar um erro ou um viés interpretativo pouco fundamentado em pesquisa documental de Charles Boxer, João Fragoso, José Curto, Joseph Miller, Luís Felipe de Alencastro, Manolo Florentino, Roquinaldo Ferreira, dentre outros, o autor assim o faz. Também reconhece os acertos ou hipóteses de trabalhos anteriores, que serviram de base para novas interpretações. Além disso, há um cuidado em valorizar bibliografias recentes, especialmente dissertações e teses, incorporando contribuições de jovens autores.

Para sustentar seu argumento, o livro está dividido em sete capítulos com progressão cronológica evidente. O primeiro trata de como o capitalismo europeu financiou a guerra em Angola, abrindo caminhos para o comércio de escravizados nos séculos XVI e XVII. O autor parte das condições geográficas do território até chegar às organizações políticas do que viria ser o Reino de Angola. Mostra como operações militares e ações religiosas portuguesas facilitaram o avassalamento de líderes locais (sobas), explicando a gênese do fluxo comercial em Luanda e no sertão. Sinto falta de mapas neste capítulo — e ao longo da obra —, pois a toponímia angolana é pouco conhecida pelo público brasileiro. Ainda assim, o capítulo valoriza o conhecimento sobre a história de Angola como conhecimento em si mesmo, e não apenas em relação ao Brasil.

O segundo capítulo explica o funcionamento do Contrato de Angola, que começa como arrendamento e, ao longo do tempo, transforma-se em imposto. A explicação administrativa é valiosa, e Menz, como em trabalhos anteriores (Menz, 2017), demonstra cuidado em tornar compreensíveis os detalhes burocráticos. A partir disso, o autor transita também para temas da História Social, como o impacto do comércio escravista na organização social de Luanda e a identificação dos contratadores e suas redes globais via transações financeiras. O tema do Contrato retorna no capítulo seis, que trata da primeira metade do século XVIII.

O terceiro capítulo aborda o envolvimento de dois governadores de Angola no comércio escravista: Luís Cesar de Menezes (1697-1702) e Antônio de Saldanha Albuquerque Ribafria (1709-1713). Embora a análise se concentre em dois casos, a metodologia de ligação nominativa utilizada pelo autor permite ampliar a pesquisa para outros sujeitos. Isso se deve ao uso de categorias de redes “impessoais” ou “relativamente institucionalizadas” (Menz, 2024, p. 152), e não somente de redes pessoais, clientelares ou religiosas, que costumeiramente a historiografia utiliza.

É preciso observar, contudo, que Menz compreende os governadores a partir de uma perspectiva militar, frequentemente se referindo a eles como “capitães-generais” — o que de fato eram, mas não só. Acredito que essa classificação decorre do impacto do capitalismo de guerra na formação do Reino de Angola, discutido no primeiro capítulo. Cria-se, portanto, uma possibilidade de pesquisa que aprofunde a relação entre ação política desses sujeitos e a participação financeira no tráfico, para além da tríade guerra, crédito e comércio escravista.

Embora os impactos globais do comércio escravista sejam amplamente discutidos na historiografia (Alencastro, 2000Domingues de Souza, 2023Marques, 2020Pomeranz, 2000), o capítulo quatro avança ao explorar conexões internas ao Império Português. Relaciona, por exemplo, a queda de Salvador da Bahia para os holandeses e a eleição da rainha Jinga em 1624 (Menz, 2024, p. 66), assim como a destruição de Palmares e o avanço da fronteira escravista em Angola (c. 1694, Menz, 2024, p. 232). Discute também o impacto do Tratado de Haia (1661) sobre o tráfico na Costa da Mina e na Senegâmbia, afetando diretamente o comércio angolano (Luanda, Benguela e Cabinda).

O quinto capítulo é o mais voltado à análise econômica do comércio escravista. Menz descreve detalhadamente a organização do setor: rotas marítimas, navios, mercadorias, formas de armação, nomes de comerciantes, redes de investidores e crédito. Explica a estrutura da comunidade mercantil de Lisboa, que no século XVIII consolida-se como elite econômica. Destaca-se o organograma mercantil (Menz, 2024, p. 273), como recurso didático. Além de demonstrar a presença do capital europeu no negócio, o capítulo cumpre um papel político ao nomear os envolvidos nas redes financiadoras do comércio escravista.

O último capítulo encerra a obra ao mostrar os impactos do fim do Contrato de Angola em 1770. O fim de um modelo é sempre o início de outro. Ao articular economia política com história administrativa, política e institucional, Menz mostra as diferenças e semelhanças no modelo mercantil que perdurará até meados do século XIX, reconfigurando a relação entre tráfico e capital, com o comércio adaptando-se, persistindo e reorganizando-se sob novas formas e estruturas institucionais.

Há uma frase que diz: “Do comércio [escravista] se seguiu a ereção de tantos templos ornados com custosas peças de prata e ouro […], dele tem resultado a nobreza e esplendor dos edifícios públicos. […] Dele vivem quase todos seus habitantes”.1 O livro Senhor da Morte mostra justamente isso. Mais do que apenas sustentar a hipótese proposta pelo o autor, a obra comprova como o império português se consolidou e se justificou por meio do tráfico escravista. Trata-se, portanto, de uma discussão necessária para qualquer campo da História, fazendo desta obra uma leitura importante para qualquer especialista do período.

REFERÊNCIAS

  • ALENCASTRO, Luis Felipe de. O trato dos viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
  • DOMINGUES DE SOUZA, Cândido. O tráfico negreiro da Bahia: Agentes, investimentos e redistribuição (1690-1817). Tese (Doutorado em História) – FCSH – Universidade Nova de Lisboa, 2023.
  • MARQUES, Leonardo. O Ouro Brasileiro e o Comércio Anglo-Português de Escravos, In: RÉ, Henrique A.; SAES, Laurent A. M. de; VELLOSO, Gustavo (org.). História e Historiografia do Trabalho Escravo no Brasil: Novas Perspectivas. São Paulo, Publicações BBM, 2020. p. 87-124
  • MENZ, Maximiliano. Senhor da morte: Capitalismo, guerra e tráfico de escravos. Portugal, Angola e Brasil (1640-1770). São Paulo: Hucitec, 2024
  • MENZ, Maximiliano. Domingos Dias da Silva, o último contratador de Angola: A trajetória de um grande traficante de Lisboa. Tempo, v. 23, n. 2, p. 383-407, maio/ago., 2017.
  • POMERANZ, Kenneth. The Great Divergence: China, Europe, and the Making of the Modern World Economy. Princeton: Princeton University Press, 2000.
  • WILLIAMS, Eric. Capitalismo e Escravidão São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  • 1ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA (APEB), Salvador. Parecer de Manoel Cardozo da Silva, procurador dos homens de negócio, 07 jan. 1731. Seção Colonial Provincial, Ordens Régias, v. 27, doc. 78-A.
  • Editora responsável:Nathália Sanglard de Almeida Nogueira

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